terça-feira, agosto 26, 2008

7...


7...


Minha boca tem as palavras que você nunca ouviu
porque a sua boca que nunca beijei tem os beijos que são meus.

E por mais que eu ande e veja a vida com seus encantos
maior será o encanto de abraçar o homem que amo e nunca toquei.

Porque de tudo o que vivi ou vivo minha estrada é sua
e na eternidade de tudo o que imortalizo quem eu canto é você.

Muitas vezes sou áspera, fugitiva, atrevida, indomável,
mas é medo, medo de que descubra como eu, que nada sou sem que seja comigo.

O que contemplo está nos olhos que só alcanço quando fecho os meus
e as aves que traçam coreografias no céu desenham mensagens distantes
para um amor que só terei quando você abrir os olhos para quem sou,
triste alma condenada ao curto riso e as lágrimas sem os toques seus.

E que nasçam os dias três mil vezes e que três mil vezes leiam
o poema que escrevo para sua calma em alcançar-me enquanto passo,
essa solitária esperança de que seus lábios aos meus toquem
e se cumpra em nós o que eu sei não ser apenas de um.

Porque meus dedos escrevem flores para o mundo
e minha pele respira o que é do mundo, até que você, o senhor de tudo surja.

Do muito tenho abraçado o abismo e farejado com os cães,
pois até que venha sou errante melancolia desaguando no infértil deserto.

Minhas loucuras são fantasias, finais de tarde que adormecem.
E até que venha não matizarei de estrelas qualquer noite ou abrirei madrugadas.

Guardado em meu peito estão as idades de um tempo em que vivemos noutro tempo.
E até que venha minha boca será guardiã de palavras, beijos e ações que são suas.

Eliane Alcântara.

Um comentário:

Fernando Rozano disse...

passagem simplesmnte brilhantes e de uma densa amorosidade. dos teus mais ricos poemas, Eliane. beijos.